Mostrar mensagens com a etiqueta significado dos nomes. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta significado dos nomes. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

O BARLAVENTO E O SOTAVENTO





Usamos ainda hoje estes termos, tanto entre os marinheiros como enquanto designação de regiões. O “barlavento” é a área virada ao vento, a que está na direção do vento, a do lado do vento, enquanto o “sotavento” é a do lado oposto ao vento, portanto a que fica abrigada. A pergunta que se pode colocar é precisamente “qual a origem destes dois termos”? Por que motivo chamamos “barlavento” ao lado de onde sopra o vento? E porquê “sotavento” para o lado oposto?
Os dicionários consultados consideram ambas as palavras de “origem obscura”, pelo que em nada podem contribuir para o esclarecimento da situação. 
Sabendo-se que o “vento” de ambas é de origem latina, fica por clarificar a origem do “barla” de “barlavento” e o “sota” de “sotavento”.
Ora, parece que mais uma vez se pode encontrar no “fenício” a origem destas palavras. Em assírio “balru” significa “direção”, pelo que é fácil aceitar que o “balruvento” deu origem ao nosso “barlavento” após uma evolução fonética muito simples. O significado é indiscutivelmente semelhante, já que “balruvento” quer dizer precisamente o mesmo que “barlavento”, e que é simplesmente “direção do vento”.




Já em relação ao “sota” de “sotavento” parece que a situação é um pouco mais complexa. A palavra “sute”, em acádio e assírio significa “vento sul”, ou simplesmente “sul”, mas a palavra “sade” quer dizer “vento do oriente”. Pensando no Algarve, vemos que o “sotavento algarvio” é a parte oriental do Algarve, mas já se a referência for o arquipélago de Cabo Verde, o “sotavento” é o conjunto de ilhas que ficam a sul. Em qualquer dos casos trata-se de territórios que têm junto de si outros espaços por onde o vento dominante passa antes, a que se chama de “barlavento”. 



No caso do Algarve o vento dominante sopra de barlavento para sotavento, e outro tanto ocorre em Cabo Verde. Fica a hipótese de este “sotavento” corresponder à localização oposta à dos ventos dominantes, que por estas paragens do hemisfério norte vem dos quadrantes oeste ou norte. Daí que o nosso “sotavento” poder ter sido na sua origem o vento sul ou oriental, raro e oposto ao vento dominante. 

Se alguém tiver uma explicação mais interessante...

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

TOPONÍMIA PORTUGUESA DE ORIGEM FENÍCIA



Fronteiras e limites de território

Mesmo em muitas populações animais o “território” é algo de fundamental para a vida dos grupos. Para o Homem deve ter sucedido o mesmo desde o tempo em que dependia da caça e recoleção, mas a importância do "território posse" de uma comunidade ampliou-se certamente após a  sedentarização e desenvolvimento da agricultura, dado o enorme esforço que é necessário para transformar um espaço natural numa paisagem humanizada (com os seus campos arroteados, plantações de árvores de fruto, silos, casas, estruturas defensivas para humanos e animais, poços, etc.). Por isso os limites dos territórios foram referência espacial de primeira importância, e criaram um conjunto de topónimos que ainda hoje se podem encontrar no país.

Em Portugal existem pelo menos dois conjuntos de topónimos que corresponderam a nomes dados a antigas fronteias: Os da família de "Miséria" (mas com variantes como "Macieira", "Maceira", "Meixeira", "Ameixeira", etc.), e os da família de "Cavalo" (com variantes como "Cavaleiro", "Carvalheiro", etc.). Vejamos um exemplo.


Os topónimos “Miséria” e “Misérias” ocorrem apenas onze vezes na Carta Militar de Portugal. Em acádio, “MISRU” significa o mesmo que “MESRU” em assírio: “fronteira, território”. Repare-se na imagem em baixo que dos dez topónimos registados nas cartas dos S. C. E. ainda hoje oito são pontos de fronteira de concelhos, e os restantes poderão ser limites de outras realidades administrativas ainda existentes (freguesias), ou ter sido de concelhos extintos, feudos desaparecidos, etc.


Outro radical que em "fenício" está relacionado com “limite de território” é “GBL”. Vejamos o significado nas línguas antigas do Próximo Oriente desta palavra e de palavras foneticamente próximas: a palavra “GB’” em ugarítico significa “colina, altura”; “GBØH” em hebraico antigo é “colina, outeiro, elevação”, o que é basicamente o mesmo. “GBL”, em ugarítico, significa “limite, fronteira; cimo, monte”, e em hebraico antigo é “montanha, fronteira, limite, fazer a divisão, marcar o limite ao redor de”, o que confirma a ideia anterior (dada por “GB’”) e a especifica. Por outro lado “QABAL”, em acádio, significa “ao meio de”, mas há também várias formas foneticamente próximas cujo sentido se relaciona com conflitos: “QABÂLU” em assírio é “afrontar-se com o inimigo, lutar”; “QABLU” em acádio significa “encontrar-se hostilmente, combate”, etc.

É possível que entre nós tenha sido usado principalmente para designar limites em áreas pouco ocupadas de serra ou campos pobres, mas que eventualmente tenham sido alvo de litígio na sua definição por parte das comunidades vizinhas. Mas isto para já é apenas uma possibilidade.

Este radical deu origem a topónimos com “Cavala” e “Cavalo” , “Cavaleiro” e “Cavaleira” e ainda “Carvalho”, “Carvalheiro” e Carvalheira”, e outras palavras próximas [1]. Verificou-se neste caso uma evolução do “G” original do "fenício", para um “C” do português atual, e num fenómeno comum de aproximação a palavras do português padrão, e a habitual “colagem” a palavras existentes no léxico das populações locais.

Embora muitas vezes os topónimos deste grupo correspondam a limites de unidades administrativas atuais, como freguesias, concelhos ou mesmo distritos, eles devem também ter sido usados para designar limites de propriedades comunitárias das aldeias, de pastagens de determinadas comunidades, etc.

O desenvolvimento destes estudos baseados na interpretação da toponímia com base na língua pré-latina  (a que de facto era falada pelo povo que criou os nomes dos sítios) permitirá conhecer muito mais do nosso passado: caminhos, povoações, necrópoles... Está tudo lá, é só preciso saber ler...




[1] - A “Carta Militar de Portugal” na escala de 1: 25 000 regista  mais de 200 locais cujo nome é da família de  “cavalo”, e da família de “carvalho” tem perto de mil.


segunda-feira, 19 de março de 2012

O nome "Beja" e as tontices que se dizem

Têm-se gasto tempo e tinta sem conta a escrever tontices sobre a origem e significado da palavra "Beja". Está bom de ver que o nome nada tem que ver com a "Pax Julia" dos romanos, muito embora estes lhe tenham chamado assim. Também nós chamámos "Nova Lisboa" a uma cidade de Angola que foi edificada num sítio chamado "Huambo", e assim que deixámos o local o velho nome regressou em pleno. Os nomes são tenazes e os povos conservadores no seu uso... Está bom de ver que a cidade alentejana se chamava "Beja" muito antes de as sandálias dos invasores terem pisado a planície do Baixo Alentejo. Partindo os romanos, o nome, que por certo nunca deixou de ser usado pelo povo autóctone, voltou a ser designação oficial e a constar dos escritos.
Tem a sua graça a origem do nome, porque na Tunísia há também uma "Bèja", e o nome tem evidentemente a mesma origem.
Vamos a isso: "Beja" tem origem na palavra fenícia "bej" ou "bex", que significa genericamente "lama, lodo", e que neste caso foi aplicado aos famosos "barros negros e férteis de Beja". Veja-se agora o que diz a página da Wikipedia sobre a "Bèja" tunisina:
“Caractéristiques des sols de Béja, le vertisol, sol très fertile, est riche en argile contenant une couche d'oxyde d'aluminium enserrée par deux couches de tétraèdres de silice. Ces sols se forment dans les régions où les climats présentent de grandes différences saisonnières et sont alternativement saturés en eau en hiver puis desséchés en été. En gonflant et se rétractant en fonction de leur teneur en eau, les feuillets des argiles piègent un peu de matière organique si bien que ces sols argileux très caractéristiques sont noirs[8]. Hérodote attirait déjà l'attention sur ce type de sol[9]. Cette fertilité du sol de Béja est légendaire(...). »

terça-feira, 6 de março de 2012

Documentários a língua portuguesa

Vou iniciar a publicação de um conjunto de documentários simples sobre os assuntos que também abordo neste blog: língua portuguesa e sua origem; toponímia e o seu significado; lendas e sua compreensão; Escrita do SW e sua decifração. O primeiro, coisinha de apresentação sem grande graça, está em:

http://www.youtube.com/user/fernaalmeida?feature=mhee#p/u/0/7AlJKteibhM

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

TOPONÍMIA PORTUGUESA

Todos nos questionamos de quando em quando sobre a origem do nome de certos sítios. Normalmente parecem coisas absolutamente disparatadas, ou nós, armados da nossa melhor boa vontade e imaginação criativa, inventamos uma justificação mais ou menos esfarrapada para o nome. Diremos que "Malavado" é nome dado a um local onde em tempos morou um homem de higiene duvidosa, que "Roncão" se chama assim porque alguém ressonava, ou que "Ruivo" era terra de gente de cabelo ruivo... Claro que pensando bem...
"Malavado" (mas também "Mal Lavada", "Malvado", etc.) resultam da expressão fenícia "mal av ad", que significa "poço de águas que transbordam"; "Roncão" é "rwn kwn", e significa "permanente no alto", e deve ter-se referido a construções permanentes (de pedra ou taipa, e não choças de ramos); já "ruivo" deve referir-se a pastagens em áreas baixas e húmidas, porque "reiu bes" significa "pastagem em local baixo"...
Assim, (re)descobrir o significado da toponímia ganha um  valor antes insuspeitado, porque podemos agora redescobrir o local onde passavam as estradas (as "Sevilha", "Savelha" mesmo "Sé Velha", mas também "Cebola" (no fenício b=v, como de resto no Norte de Portugal), mas também os topónimos iniciados por "alc", como "Alcaide", "Alcalá", etc.
Todo um novo mundo se abre ao investigador depois de saber como funcionava a antiga língua popular.