quarta-feira, 5 de setembro de 2012

TOPONÍMIA PORTUGUESA DE ORIGEM FENÍCIA



Fronteiras e limites de território

Mesmo em muitas populações animais o “território” é algo de fundamental para a vida dos grupos. Para o Homem deve ter sucedido o mesmo desde o tempo em que dependia da caça e recoleção, mas a importância do "território posse" de uma comunidade ampliou-se certamente após a  sedentarização e desenvolvimento da agricultura, dado o enorme esforço que é necessário para transformar um espaço natural numa paisagem humanizada (com os seus campos arroteados, plantações de árvores de fruto, silos, casas, estruturas defensivas para humanos e animais, poços, etc.). Por isso os limites dos territórios foram referência espacial de primeira importância, e criaram um conjunto de topónimos que ainda hoje se podem encontrar no país.

Em Portugal existem pelo menos dois conjuntos de topónimos que corresponderam a nomes dados a antigas fronteias: Os da família de "Miséria" (mas com variantes como "Macieira", "Maceira", "Meixeira", "Ameixeira", etc.), e os da família de "Cavalo" (com variantes como "Cavaleiro", "Carvalheiro", etc.). Vejamos um exemplo.


Os topónimos “Miséria” e “Misérias” ocorrem apenas onze vezes na Carta Militar de Portugal. Em acádio, “MISRU” significa o mesmo que “MESRU” em assírio: “fronteira, território”. Repare-se na imagem em baixo que dos dez topónimos registados nas cartas dos S. C. E. ainda hoje oito são pontos de fronteira de concelhos, e os restantes poderão ser limites de outras realidades administrativas ainda existentes (freguesias), ou ter sido de concelhos extintos, feudos desaparecidos, etc.


Outro radical que em "fenício" está relacionado com “limite de território” é “GBL”. Vejamos o significado nas línguas antigas do Próximo Oriente desta palavra e de palavras foneticamente próximas: a palavra “GB’” em ugarítico significa “colina, altura”; “GBØH” em hebraico antigo é “colina, outeiro, elevação”, o que é basicamente o mesmo. “GBL”, em ugarítico, significa “limite, fronteira; cimo, monte”, e em hebraico antigo é “montanha, fronteira, limite, fazer a divisão, marcar o limite ao redor de”, o que confirma a ideia anterior (dada por “GB’”) e a especifica. Por outro lado “QABAL”, em acádio, significa “ao meio de”, mas há também várias formas foneticamente próximas cujo sentido se relaciona com conflitos: “QABÂLU” em assírio é “afrontar-se com o inimigo, lutar”; “QABLU” em acádio significa “encontrar-se hostilmente, combate”, etc.

É possível que entre nós tenha sido usado principalmente para designar limites em áreas pouco ocupadas de serra ou campos pobres, mas que eventualmente tenham sido alvo de litígio na sua definição por parte das comunidades vizinhas. Mas isto para já é apenas uma possibilidade.

Este radical deu origem a topónimos com “Cavala” e “Cavalo” , “Cavaleiro” e “Cavaleira” e ainda “Carvalho”, “Carvalheiro” e Carvalheira”, e outras palavras próximas [1]. Verificou-se neste caso uma evolução do “G” original do "fenício", para um “C” do português atual, e num fenómeno comum de aproximação a palavras do português padrão, e a habitual “colagem” a palavras existentes no léxico das populações locais.

Embora muitas vezes os topónimos deste grupo correspondam a limites de unidades administrativas atuais, como freguesias, concelhos ou mesmo distritos, eles devem também ter sido usados para designar limites de propriedades comunitárias das aldeias, de pastagens de determinadas comunidades, etc.

O desenvolvimento destes estudos baseados na interpretação da toponímia com base na língua pré-latina  (a que de facto era falada pelo povo que criou os nomes dos sítios) permitirá conhecer muito mais do nosso passado: caminhos, povoações, necrópoles... Está tudo lá, é só preciso saber ler...




[1] - A “Carta Militar de Portugal” na escala de 1: 25 000 regista  mais de 200 locais cujo nome é da família de  “cavalo”, e da família de “carvalho” tem perto de mil.


terça-feira, 22 de maio de 2012

OBRIGADO (agradecido)

Há expressões que utilizamos regularmente mas que, quando pensamos no seu significado e na sua origem nos criam muitas interrogações. Uma dessas fórmulas é o termo que utilizamos para agradecer algo que nos é oferecido ou algum convite que nos é endereçado: "obrigado". Por que motivo dizemos "obrigado" quando agradecemos algo? Qual a origem da palavra e o seu significado original?
Costuma aceitar-se que a nossa palavra “obrigado” (ou “obrigada”) tenha origem no termo latino “obligãtu-”, que significa “ligar, empenhar, comprometer”, etc. No entanto o nosso “obrigado” é uma fórmula de agradecimento, e nada tem que ver com compromissos ou ligações.
Em hebraico antigo “øbr” significa “oferendar”, termo que em ugarítico significa “ser convidado”. O som “gado” do final da palavra “obrigado” deve provir de “ḥdh”,de “ĥadu”, de “gd” ou de “ĥdy”, termos que nas diversas línguas a que chamamos “fenício” (ugarítico, acádio, assírio e hebraico antigo), significam sempre sensivelmente o mesmo: “alegria, felicidade, fortuna, fazer feliz, alegrar-se, etc.”. Da combinação destas ideias e palavras antigas obtêm-se termos como “Øbrgd”, que significa “felicidade pela oferta” ou “alegria pelo convite”, etc.. É certamente a origem do nosso "obrigado".
Já agora, não parece ser certo que o nosso "obrigado" tenha dado origem ao "arigato" japonês. Pois é, é mais uma daquelas afirmações duvidosas que, à força de repetida mil vezes, passou a verdade indiscutível. Quem estuda estas coisas (particularmente os de língua inglesa) afirma não dúvidas que o "arigato" japonês é apenas uma simplificação da expressão japonesa "arigato gozaimasu". A evolução seria a "rigatō < arigatau < arigataku < arigatashi < ari + katashi". No entanto, e a despeito de tanta sapiência, parece-me difícil que as palavras "ari katashi" tenham originado uma fórmula de agradecimento, já a tradução do japonês para inglês destas palavras seria "Ari is a verb meaning "to be" and katashi is an adjective meaning "difficult", o que não me parece ter grande sentido. Esquecem-se estes autores que a língua é um organismo vivo, dinâmico e flexível. É provável que o nosso "obrigado", enquanto fórmula de agradecimento, tenha sido associado a palavras japonesas pré-existentes.
Não pareça estranha esta hipótese, porque o nosso "obrigado" também é a evolução convergente entre "obligãtu" latino (que veio a dar à palavra o sentido de "ser obrigatório") com o fenício "Øbrgd" que é uma fórmula de demonstrar felicidade pela oferta ou pelo convite.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

ADÃO

Tal foi a vontade de encontrar uma origem latina para todas as palavras do português, que mesmo a palavra “Adão” (que como todos sabemos é um nome hebraico referido pelo Antigo Testamento como sendo o nome do primeiro homem), que mesmo esse nome é dado como sendo de origem latina! “Adão” seria assim proveniente de “Adamus”. Diz nomeadamente J. P. Machado que “a hipótese mais plausível liga-o ao assírio “adamu”, “fazer, produzir”; desta maneira o Homem é uma criatura, um ser feito, produzido.” Claro está que a origem não será certamente esta, e assim se mostra também o profundo desconhecimento das línguas antigas do próximo oriente.

Refiro este termo mais por curiosidade e para que melhor se perceba o funcionamento do “fenício”, que pela importância para demonstrar a relação do fenício com o português. Por isso, em relação a este nome farei uma análise um pouco mais detalhada.

Vejamos então de onde poderá vir a palavra “Adão”:

“Adm” em ugarítico significa “homem, humanidade, gente”;

“Adm” em hebraico antigo significa “humanidade, ser homem”;

“Admh” em hebraico antigo é “Terra (planeta), terra (chão, território, etc.);

“Adn” em ugarítico é “senhor, pai”;

“Adôn” em hebraico antigo é “senhor, dono, patrão”;

“Adôni” em hebraico antigo é “meu senhor, Senhor (Deus);

“Ødn” (ãedn) em hebraico antigo é “viver em delícias”;

“Ødnh” (ãednâa) em hebraico antigo é “desejo, prazer”.

Se se atentar com alguma profundidade sobre os significados das palavras foneticamente próximas de “Adão” veremos que elas têm significados que correspondem às características principais do “Adão” bíblico: o “Homem”; a “Terra”; “Deus”; “viver em delícias” (o paraíso); “desejo, prazer”. Além disso, se pensarmos em formas compostas, como “ad+om” termos como significado “pai do povo”, “pai da população”, ou “pai da gente”. Torna-se clara a origem do “Adão” bíblico (o pai da humanidade, feito por Deus, a quem foi dada a Terra, que viveu no paraíso, e que teve uns episódios importantes na sua vida ligados ao desejo e prazer), que evidentemente nada tem de latino na sua origem.