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quinta-feira, 12 de junho de 2014

Como os latinistas escondem a origem fenícia da língua portuguesa

A ideia de que o português nasceu de uma língua a que podemos chamar “fenício” não é nova, apenas tem sido sistematicamente escondida por latinistas medíocres. Tentam fazer crer que a língua do povo foi esquecida e que esse mesmo povo (que somos nós) era constituído por uns matarruanos abrutalhados que não só deixaram de falar a sua língua, como nunca aprenderam a falar latim devidamente.

Contudo ao longo dos tempos muitos intelectuais constataram o óbvio: a língua que o povo falava antes da conquista romana era uma língua do grupo semita ocidental, que essa língua sobreviveu e é parte fundamental do português que falamos. Veja-se o que diz em 1712 D. Raphael Bluteau:

“(…) Primeiro que imperassem na Hispânia ao Romanos, é certo, que as duas nações a que chamamos Castelhana e portuguesa falavam alguma língua, se a língua Fenícia ou Cartaginesa, se outra composta destas duas, ou misturadas com idiomas de Gregos, Galos e outros povos adventícios, não o examino nem tenho notícia suficiente para decidir questão tão intricada como esta.”


D. Raphael Bluteau, “Vocabulário Portuguez e Latino” em 1712

domingo, 9 de fevereiro de 2014

OS QUEIJOS, OS COXOS E OS LIMITES DA TERRA

Alguém se lembrou de dizer que o “Castelo do Queijo” teria sido construído sobre uma rocha que parecia um queijo, e a coisa pegou. Hoje a “explicação oficial” para a origem do nome “Castelo do Queijo”, partilhada pelo povo e por alguma intelectualidade, é essa: “existiu no lugar onde está a fortaleza um rochedo que parecia mesmo um belo queijo”.
No entanto… na verdade este “queijo” do “Castelo do Queijo” deve ter nascido de “qṣ” ou “qṣh”, que em ugarítico e em hebraico antigo (portanto, de um modo genérico naquela língua a que costumo chamar de “fenício”), significa “extremo, borda, limite, margem, etc.”. O nome foi dado ao local pelo facto de aquele local ser o “limite, a borda, a margem”. Do mesmo radical “qṣ” ou “qṣh” nasceu o “Cochinho”, no Algarve, que não é mais que “qṣhim” ou “qṣim” (“im” é mar) que significa “limite ou borda do mar”.

(repare-se que em terra há um forte que se chama "Forte da Rata". "Rata" em fenício é "canal", e o "Forte da Rata" é o "Forte do Canal")
Moisés Espírito Santo no seu “Cinco Mil Anos de Cultura a Oeste” apresenta para esta mesma situação o topónimo “Cós”, da região de Alcobaça, local hoje afastado do mar, mas que segundo este autor, no passado, terá sido um porto fenício. Existem muitos outros topónimos que incluem o som “QS” e se referem ao limite de qualquer coisa. Temos o “Cosinhadouro”, a “Questã”, “Cochim”, “Cachim”, “Caxinas”…
Mas este som “QS” não deu só origem a topónimos. A nossa palavra “costa” (quando se refere ao território) também é um termo de origem fenícia que deve provir de “qṣt’h” [qassetôâ], em que “t’h” significa “traçar uma linha, demarcar”, e “qṣh” quer dizer “extremidade, fim, limite, margem, borda, beira, lado”. Portanto a nossa “costa” já inclui a ideia de “traçar uma linha”, e assim, quando dizemos “linha de costa” estamos na prática a usar a ideia de “linha” duas vezes.
Já agora, não continuem a pensar que os “Queijo” da toponímia tem relação com comida, que o “Cochinho” da barra de Tavira nasceu de um desgraçado a quem faltava uma perna, ou outros disparates do mesmo tipo. Os topónimos não nascem assim. Para os compreender é preciso comhecer a língua em que foram criados. O resto é imaginação popular.

sábado, 18 de janeiro de 2014

A "QUELHA", A "CALLE" A "CALE" E O "CANALE"

Não restam dúvidas que as “Cale” da região de Aveiro são “canais”. Existem também os termos “cale” e “quelha” em português que equivalem à “calle” espanhola, que é um caminho ou uma rua, e ainda um tipo de embarcação usado nos rios do Minho a que se chama “cale” (um barco de fundo chato para navegar em canais pouco profundos). Correspondendo a ideia próxima e com uma fonética também semelhante temos ainda a palavra “calha”.



Costuma dizer-se que o nome vem do latim, de “canale”, que significa “canal”. No entanto, muito embora seja uma possibilidade aceitável, penso que entre nós a ideia genérica encerrada na sequência consonântica “c*l*” corresponde mais à ideia fenícia que se relaciona com situações em que a passagem de qualquer coisa é condicionada: seja de pessoas num caminho emparedado (a quelha, a calle, a cale) seja de água (a cale, a calha) seja de condicionamento de circulação de outros objetos (a calha “corrediça”, a calha “técnica”).
Repare-se que em acádio e em assírio “kalu” significa “conter, levar”, “kl’” em hebraico antigo significa “confinamento” e “klh” em hebraico antigo e “kla” em ugarítico quer dizer “encerrar”. Esta ideia geral de “conter, encerrar, confinar” é precisamente a que conduz tanto ao nosso “c*l*” como mesmo ao radical latino “c*n*l*” (de que é exemplo o “canale”). Sei que esta última ideia é um pouco mais difícil de perceber, mas vou tentar explicar o que penso que aconteceu:
Está fora de dúvida que as línguas antigas do Próximo Oriente são as mais próximas da antiga línguas do Neolítico que com a passagem do tempo vieram a difundir-se pelo mundo. O latim, como outras línguas antigas, bebeu nesta língua neolítica primordial, e muitas palavras latinas são composições criadas a partir dos radicais “fenícios”. É o caso deste termo latino“canale”. Em fenício “q*n*” é “cana, tubo, canudo”, etc.; por outro lado, como se viu, “k*l*” é “conter, encerrar, confinar”. O interessante é que a evolução fonética de “q*n*k*l*” se faz para “q*n*(k*)l*” e para “q*n*l*” (canale) e com significado que corresponde à junção dos dois radicais primordiais: “cana ou tubo confinante”, portanto “canal”. Sei que este fenómeno é complexo e não o conheço descrito por outros autores, mas tenho-o verificado em vários outros casos.

Em qualquer dos casos, e voltando às coisas mais simples, parece-me claro que o “canale” latino chegou até nós por via erudita através das elites urbanas e religiosas latinizadas dando origem ao nosso “canal”, mas as “quelha”, “calha” e “cale” são coisas do povo e da sua língua, e por isso são de origem popular e fenícia.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

O BARLAVENTO E O SOTAVENTO





Usamos ainda hoje estes termos, tanto entre os marinheiros como enquanto designação de regiões. O “barlavento” é a área virada ao vento, a que está na direção do vento, a do lado do vento, enquanto o “sotavento” é a do lado oposto ao vento, portanto a que fica abrigada. A pergunta que se pode colocar é precisamente “qual a origem destes dois termos”? Por que motivo chamamos “barlavento” ao lado de onde sopra o vento? E porquê “sotavento” para o lado oposto?
Os dicionários consultados consideram ambas as palavras de “origem obscura”, pelo que em nada podem contribuir para o esclarecimento da situação. 
Sabendo-se que o “vento” de ambas é de origem latina, fica por clarificar a origem do “barla” de “barlavento” e o “sota” de “sotavento”.
Ora, parece que mais uma vez se pode encontrar no “fenício” a origem destas palavras. Em assírio “balru” significa “direção”, pelo que é fácil aceitar que o “balruvento” deu origem ao nosso “barlavento” após uma evolução fonética muito simples. O significado é indiscutivelmente semelhante, já que “balruvento” quer dizer precisamente o mesmo que “barlavento”, e que é simplesmente “direção do vento”.




Já em relação ao “sota” de “sotavento” parece que a situação é um pouco mais complexa. A palavra “sute”, em acádio e assírio significa “vento sul”, ou simplesmente “sul”, mas a palavra “sade” quer dizer “vento do oriente”. Pensando no Algarve, vemos que o “sotavento algarvio” é a parte oriental do Algarve, mas já se a referência for o arquipélago de Cabo Verde, o “sotavento” é o conjunto de ilhas que ficam a sul. Em qualquer dos casos trata-se de territórios que têm junto de si outros espaços por onde o vento dominante passa antes, a que se chama de “barlavento”. 



No caso do Algarve o vento dominante sopra de barlavento para sotavento, e outro tanto ocorre em Cabo Verde. Fica a hipótese de este “sotavento” corresponder à localização oposta à dos ventos dominantes, que por estas paragens do hemisfério norte vem dos quadrantes oeste ou norte. Daí que o nosso “sotavento” poder ter sido na sua origem o vento sul ou oriental, raro e oposto ao vento dominante. 

Se alguém tiver uma explicação mais interessante...

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

ORIGEM E SIGNIFICADO DO TOPÓNIMO "ÍLHAVO"

É possível que o topónimo “Ílhavo” signifique “costa das febres” e seja proveniente de “iili’abu” ou “iili’avu”. O radical “ii” significa em hebraico antigo “costa, litoral, ilha” e tem equivalente em ugarítico no termo “ay” ao qual é dado o significado de “ilha”. O termo “li’avu” é proveniente da “terapêutica mesopotâmica” (que é um glossário assírio especialmente interessante por conter termos ligados à medicina), e significa precisamente “febre”. Daí a possibilidade de “Ílhavo” ter significado originalmente “terra da febre”, e o nome de toda a região ter mais tarde ficado ligado à povoação.


Não me parece descabida esta possibilidade, visto que em tempos recuados a costa marítima seria precisamente onde está hoje o rio Boco, e os terrenos que hoje existem a Oeste seriam primeiro mar aberto, e mais tarde pântanos. De resto toda essa região a Oeste de Ílhavo é dominada por locais de nome “gafanha”: é a da “Nazaré”, a de” Aquém”, a da “Boavista”, a da “Encarnação”, a do “Carmo”, a da “Vagueira”, a da “Boa Hora”, a do “Areão”… Quer isto dizer que toda aquela região era terra de “gafos”, ou seja, de leprosos. Portanto deve ter-se tratado de uma área inóspita, pantanosa e cheia de mosquitos, certamente em certos períodos com paludismo endémico.
Esta possibilidade pode de algum modo ser confirmada com a existência do topónimo “febres” no sul da antiga “costa velha”, no concelho de Cantanhede, que será a tradução para português atual do topónimo “Ílhavo”.
José Pedro Machado refere o uso de várias grafias antigas para este topónimo: “Iliauo” entre 1037 e 1065; “Iliauo” e “Iliabum” em 1088; “Ilauum” em 1095; “Ilhauo”  em 1176; “Ilhevo” e “Ilhovo” no séc. XVI.  É de notar que em especial as formas mais antigas são muito próximas do “iili’abu” fenício.
Dados todos estes factos sou de opinião que o topónimo “Ílhavo” deve ter nascido de “iili’abu”, com o significado de “costa das febres”, e que constituía designação genérica de toda a costa pantanosa da região da atual Ria de Aveiro. Mais tarde o topónimo acabou por ficar associado a um dos seus povoados mais antigos, a atual cidade de "Ílhavo".


segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

As abóbadas e a sua origem

Já é quase vício: tenho meia hora de boa vida e entretenho-me a descobrir mais umas palavritas cuja etimologia anda enganada. Agora foi a nossa tão tradicional "abóbada", que se tem dito que nasceu de... ora vejam mais uma entrada que vai constar da próxima edição do meu "A Origem da Língua Portuguesa"...

"Os dicionários usualmente referem que a palavra “abóbada” teve origem numa hipotética forma latina “volvita”, part. pass. fem. pop. de “volvere”, que significa em latim “voltar; revirar”. Evidentemente que esta possibilidade é pouco verosímil, e em fenício pode ser encontrada uma possível raiz bem mais aceitável. A forma “øwb” significa em fenício “obscurecer, cobrir com nuvens”; a forma “øwp” é “estar escuro, cobrir com trevas”; “øb” é “alpendre, baldaquino”. Por outro lado “bt” (ou “bitu”) é “casa, palácio, templo, sala”. Assim, “øwbbt” [âobabete] será “cobertura da casa”, “cobertura do palácio”, etc."

sábado, 28 de dezembro de 2013

As charnecas em Portugal e no Brasil


Os nossos dicionários geralmente incluem a palavra “charneca” num grupo de palavras que classificam como sendo “de origem obscura”.  Estas palavras ditas “de origem obscura” são quase sempre de origem fenícia, e não é necessário muito esforço para encontrar essa mesma origem. No caso da “charneca” existe uma característica que aparentemente complica a compreensão da sua etimologia: em Portugal as “charneca” são quase sempre terrenos arenosos, pobres e secos, enquanto no Brasil correspondem a terras pantanosas e alagadiças. Alguns vêm nesta diferença uma contradição estranha e inexplicável,  porque julgam que a origem do nome está diretamente relacionada com as características físicas da terra.
De facto o nome não nasceu da maior ou menor secura do terreno, mas antes da característica de se tratar de “terra sem dono”. Etimologicamente a nossa “charneca” teve origem em “ṣeru”, que em acádio e assírio significa “planície, campo, estepe”. A este radical, que originou o início da palavra, juntou-se um outro, o “nqh”, que significa “ser livre, estar isento”. Assim, a nossa palavra “charneca” nasceu da forma “sernqh” e desta ideia de “terreno sem dono”, “terra livre”, “estepe ou campo livre”, o que pelo menos em certo período tanto se aplicava aos terrenos arenosos e pobres de Portugal, como a terrenos pantanosos do Brasil.

Carta n.º 603 dos S.C.E. na esc. 1:25000

Curiosamente existem na toponímia portuguesa marcas da apropriação dessas terras que em tempos foram “livres”. Em várias situações os topónimos “sesmaria” (ou “sismaria”) e “charneca” ainda hoje são muito próximos. Observem-se os exemplos que junto.


Carta n.º 555 dos S.C.E. na esc. 1:25000

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

AS VELHAS LENDAS FENÍCIAS QUE AINDA SOBREVIVEM

Pintura de Carlos Porfírio existente no Museu de Faro

Zorra berradeira

A “Zorra berradeira” é uma entidade mítica das serras do Baixo Alentejo e Alarve. Entre todos os “medos” de que ouvi falar nesta região é o mais temido. Na aldeia de S. Luís também é conhecida por “zorra magra”. Entre os velhos, há quem afirme tê-la ouvido de noite, e tratar-se de um animal que nunca ninguém vê, mas que existia; mas há também quem afirme nunca a ter ouvido, e tratar-se de um “medo” com que antigamente se assustava as pessoas, e particularmente os jovens.

Em “O Algarve Encantado na Obra de Carlos Porfírio” (edição do Museu de Faro - 2001) há uma descrição deste, feita no séc. XIX, por Francisco Xavier de Ataíde Oliveira. Essa descrição tem mais detalhes que os que até hoje tenho conseguido pelos testemunhos diretos dos velhos do concelho de Odemira. Diz:

“O povo do Algarve fala da zorra berradeira com um medo horrível.
Diversas são as opiniões que correm a respeito dessa entidade malfazeja.
Uns afirmam que a zorra berradeira é uma transformação de moura encantada. Certa moura encantada, desejando escapar-se aos funestos efeitos do encantamento, rebelou-se contra Allah, que a castigou, desgarrando-a e tornando-a objecto de ódio de toda a gente, mouros e cristãos.
Outros sustentam que aquele ser horrível é a alma penada de uma velha, em vida muito má, e que respondia a quem lhe censurava a sua vida escandalosa:
- Neste mundo anda-se como se quer. Porque no outro nada podem saber.
De noite, a deshoras, tem muita gente ouvido berrar, nos cumes dos mais agrestes serros, a zorra fatal. Vista de longe parece uma cabra, de mais perto uma imunda ave, de enormes dimensões, com as asas manchadas e sujas. É o verdadeiro retracto das arpias de outras eras.
Pessoas há que têm sido acometidas de noite pela zorra berradeira e se têm visto em grande perigo. Salta sobre o indivíduo com uma força enorme e no mesmo momento, como um velo arremessado pela força do vento, vai pousar sobre o serro mais alto. Exala de si um vapor imundo e nojento e, berrando atroa os serros e vales.
Em muitos concelhos do Algarve é a zorra berradeira muito mais temível do que as mouras encantadas ou as bruxas.
Parece que nos seus berros só anuncia desgraças e maldades.
Enquanto as Gens ou Jens são uns seres bem fazejos e queridos, a zorra berradeira é má e odiada por toda a gente.
A zorra berradeira é verdadeiramente a transformação das fúrias dos antigos. É tão má como estas e como estas igualmente temida.
Quando alguém tem a infelicidade de ouvir de noite a zorra berradeira, conta logo com desgraça em casa.
(…)
Quando se pergunta a alguém, onde reside a zorra berradeira, responde imediatamente:
Em Odelouca.
Odelouca é uma ribeira que vem desaguar no rio de Portimão.
Há ocasiões em que a zorra berradeira se converte em um verdadeiro flagelo no concelho de Monchique. Os habitantes dos sítios de Odelouca não se atrevem a sair de suas casas, à noite. (…)”

Vejamos a origem provável desta entidade:

SØR ou SØIR [ZOUR ou ZOUIR] é um “bode; cabeludo; demónio (em forma de bode)”, mas também “horrorizar-se, eriçar-se, tempestuoso; temor, tempestade; tornar-se tempestuoso, tempestade, ficar perplexo, voar (…)”. Por outro lado ZWR [ZUÔR] quer dizer “feder, ser intolerável”[1]. É claro que esta “zorra” pouco tem que ver com a raposa, que por aqui também se chama zorra. A única relação vem do ZWR – cheirar mal, que de resto está possivelmente na origem do nome popular do carnívoro.

“Berradeira” provém certamente de BRD+HR [bêrrêdeir], e significa “animal manchado da serra”. Este BRD é comum ao nome de um pequeno carnívoro que existe no Sul do país, e que por aqui se chama “escalabardo”. Repare-se que este “escalabardo” não é mais que SKL+BRD – proceder mal, ou ser insensato + animal manchado.

O outro nome que encontramos em S. Luís – “Magra” – deve provir de “MAGÔR”, que em hebraico antigo significa “espanto, horror”, ou de “MGR” – “deitar por terra, derrubar para baixo”.

Assim a zorra berradeira deve ter significado inicialmente “animal manchado da serra + demónio (em forma de bode)”, ou numa tradução mais fácil, “demónio (em forma de bode) manchado da serra”. Mais tarde, foram-se acrescentando novos atributos aos originais, atributos esses que resultam, como acontece em muitos outros casos, de significados de expressões foneticamente próximas, quer oriundas das línguas semitas antigas, quer do português actual. Por isso o animal também “voa” numa “tempestade” (SØR), e “exala em si um vapor imundo e nojento” (ZWR).
                                                                                    
É provável que este ser mítico das serras do Sul seja uma importação de um mito antigo do próximo oriente que viajou com os colonos que por aqui vieram estabelecer-se, e não, como se poderia pensar, de um mito criado nesta região do país. Será mesmo muito provável que actualmente a zorra berradeira já não exista em lado algum da região do mediterrâneo oriental onde provavelmente nasceu, e tenha permanecido nesta antiga colónia distante entre os descendentes dos emigrantes desses tempos. Pode ser algo semelhante ao que acontece ainda hoje na ilha do Príncipe, em que se representam episódios de combates entre mouros e cristãos, alguns dos quais já esquecidos em Portugal, mas que se mantêm vivos na nossa antiga colónia.




[1] - Este deve ser um, entre muitos casos, em que um termo da língua popular se funde com o latim para dar origem a um termo do português. “Suor” do português deve a confluência espontânea entre o “SUDOR” latino com o ZUÔR semita.

sábado, 21 de dezembro de 2013

A nossa romã, os romanos e os fenícios



Aceita-se usualmente que a nossa palavra “romã” tenha tido uma origem latina, em “romana (mala)”, que seria “maçã romana”. Não resisto a salientar a obcecação latinista dos nossos letrados, que por vezes (como é o caso) os fez roçar o ridículo. Já no século XIX o Cardeal Saraiva referia a origem hebraica da palavra. Vale a pena citar um pouco do seu texto sobre o assunto:
“…porque o nome malum punicum, que lhe deram os latinos, parece indicar que esta planta tinha sido introduzida na Europa pelos carthaginezes.”. Ainda assim os nossos latinistas procuram a origem da palavra “romã” em “Roma”.
Lendo o texto do Cardeal Saraiva não se pode dizer que não se sabia a origem da palavra "romã", e terá que se admitir que insistir no erro terá já sido má fé. Para isso inventara mesmo a forma hipotética “mala romana”, sabendo-se precisamente que os romanos lhe chamavam “malum punicum”. Digamos que é preciso ser absolutamente obcecado pelos romanos e ao mesmo tempo não ter o mínimo de rigor científico.
 Na verdade a palavra deve ser fenícia, já que “rumôn” em hebraico antigo significa precisamente “romã”. Se já no século XIX se sabia isto, por que motivo os dicionários do século XXI insistem no erro? Dá que pensar.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

O CAMINHO, A DISTÂNCIA E O FOGÃO


"Geralmente os dicionários admitem que a palavra “caminho” tenha origem num termo do “latim vulgar” – “camminu-”. Simplesmente, como é bom de compreender, o dito “latim vulgar” não é latim. O termo latino foneticamente mais próximo é “caminus”, e significa “forno, fornalha, fogão”, e logo nada tem que ver com percursos ou distâncias. 





Já em fenício “kmn” (em boa verdade não sabemos como era pronunciado, talvez [kamene]), significa “distância”. 



É portanto incomparavelmente mais provável que a nossa palavra “caminho” provenha de “kmn” fenício que de qualquer palavra latina que possa significar “forno”. De resto continuamos a usar a palavra “caminho” precisamente no sentido de “distância”."

In: A origem da Língua Portuguesa, p. 150


 Por estranho que possa parecer ainda há quem continue a afirmar a origem latina da palavra! Ele há gente para tudo!


quarta-feira, 5 de setembro de 2012

TOPONÍMIA PORTUGUESA DE ORIGEM FENÍCIA



Fronteiras e limites de território

Mesmo em muitas populações animais o “território” é algo de fundamental para a vida dos grupos. Para o Homem deve ter sucedido o mesmo desde o tempo em que dependia da caça e recoleção, mas a importância do "território posse" de uma comunidade ampliou-se certamente após a  sedentarização e desenvolvimento da agricultura, dado o enorme esforço que é necessário para transformar um espaço natural numa paisagem humanizada (com os seus campos arroteados, plantações de árvores de fruto, silos, casas, estruturas defensivas para humanos e animais, poços, etc.). Por isso os limites dos territórios foram referência espacial de primeira importância, e criaram um conjunto de topónimos que ainda hoje se podem encontrar no país.

Em Portugal existem pelo menos dois conjuntos de topónimos que corresponderam a nomes dados a antigas fronteias: Os da família de "Miséria" (mas com variantes como "Macieira", "Maceira", "Meixeira", "Ameixeira", etc.), e os da família de "Cavalo" (com variantes como "Cavaleiro", "Carvalheiro", etc.). Vejamos um exemplo.


Os topónimos “Miséria” e “Misérias” ocorrem apenas onze vezes na Carta Militar de Portugal. Em acádio, “MISRU” significa o mesmo que “MESRU” em assírio: “fronteira, território”. Repare-se na imagem em baixo que dos dez topónimos registados nas cartas dos S. C. E. ainda hoje oito são pontos de fronteira de concelhos, e os restantes poderão ser limites de outras realidades administrativas ainda existentes (freguesias), ou ter sido de concelhos extintos, feudos desaparecidos, etc.


Outro radical que em "fenício" está relacionado com “limite de território” é “GBL”. Vejamos o significado nas línguas antigas do Próximo Oriente desta palavra e de palavras foneticamente próximas: a palavra “GB’” em ugarítico significa “colina, altura”; “GBØH” em hebraico antigo é “colina, outeiro, elevação”, o que é basicamente o mesmo. “GBL”, em ugarítico, significa “limite, fronteira; cimo, monte”, e em hebraico antigo é “montanha, fronteira, limite, fazer a divisão, marcar o limite ao redor de”, o que confirma a ideia anterior (dada por “GB’”) e a especifica. Por outro lado “QABAL”, em acádio, significa “ao meio de”, mas há também várias formas foneticamente próximas cujo sentido se relaciona com conflitos: “QABÂLU” em assírio é “afrontar-se com o inimigo, lutar”; “QABLU” em acádio significa “encontrar-se hostilmente, combate”, etc.

É possível que entre nós tenha sido usado principalmente para designar limites em áreas pouco ocupadas de serra ou campos pobres, mas que eventualmente tenham sido alvo de litígio na sua definição por parte das comunidades vizinhas. Mas isto para já é apenas uma possibilidade.

Este radical deu origem a topónimos com “Cavala” e “Cavalo” , “Cavaleiro” e “Cavaleira” e ainda “Carvalho”, “Carvalheiro” e Carvalheira”, e outras palavras próximas [1]. Verificou-se neste caso uma evolução do “G” original do "fenício", para um “C” do português atual, e num fenómeno comum de aproximação a palavras do português padrão, e a habitual “colagem” a palavras existentes no léxico das populações locais.

Embora muitas vezes os topónimos deste grupo correspondam a limites de unidades administrativas atuais, como freguesias, concelhos ou mesmo distritos, eles devem também ter sido usados para designar limites de propriedades comunitárias das aldeias, de pastagens de determinadas comunidades, etc.

O desenvolvimento destes estudos baseados na interpretação da toponímia com base na língua pré-latina  (a que de facto era falada pelo povo que criou os nomes dos sítios) permitirá conhecer muito mais do nosso passado: caminhos, povoações, necrópoles... Está tudo lá, é só preciso saber ler...




[1] - A “Carta Militar de Portugal” na escala de 1: 25 000 regista  mais de 200 locais cujo nome é da família de  “cavalo”, e da família de “carvalho” tem perto de mil.


segunda-feira, 2 de abril de 2012

PALAVRAS PORTUGUESAS DE ORIGEM FENÍCIA INICIADAS PELA LETRA "D"

DECORAR
Dizem os dicionários que o verbo “decorar” provém de “de+cor+ar”, sendo este “cor” proveniente do termo latino “cor” que significa “coração”. É certamente mais um caso de uma etimologia errada, pois está bem de ver que a ideia de “coração” tem pouca relação com o “saber de memória”. Por isso, penso que será muito mais provável que a origem da nossa palavra “decorar” esteja em “qr’ ”, já que “qr’ ” significa em fenício “recitar”. É evidente que essa ideia de “recitar” pode facilmente estar na origem do nosso dizer de "cor”, portanto "dizer de cor" é "dizer recitando". Daí o nascimento do  nosso verbo "decorar".

DEGREDO
A palavra “degredo” possivelmente provém de “daku redu”, que significa à letra “seguir a direcção do desterro”. A origem que geralmente é apontada para a origem desta palavra, em “decreto”,  termo latino que significa “decisão, decreto”, parece assim não ter sentido.

DEFEITO
A palavra latina “defectu” tem sido dada como origem da nossa palavra portuguesa “defeito”. A evolução fonética entre as duas formas não oferece qualquer problema, no entanto este termo latino “defectu” significa “desaparição; eclipse; defecção”, o que não corresponde à nossa noção de “defeito”. Na verdade a origem da nossa palavra deve estar no termo fenício “dfiøwt” (defiãeôt) que significa precisamente “defeito" ou "mácula que transtorna”.

DELIDO
A palavra “delido”, que significa em português “desfeito, arruinado, roto, gasto” tanto pode provir do fenício “dlt”, que significa “debilidade, pobreza”, como ter origem no termo latino “diluere”, que significa “dissolver, diluir, enfraquecer”. O mais certo é que neste e em muitos outros casos tenha havido uma evolução convergente dos termos latino e fenício para originar a actual palavra do português.

DERRAMAR
O nosso verbo português “derramar”, quando significa “entornar, espalhar”, ao contrário daquilo que geralmente se afirma nos dicionários, não provém de “ramo”. A sua origem é certamente “drrmh", que significa em fenício  de” que significa “arremessar fluido”.

DERREAR
“Derrear”, é “fazer vergar as costas, torcer, curvar-se, etc.”. Evidentemente que o termo não tem origem em “renes”, que significa “rins” em latim, conforme pretendem alguns autores. A palavra é de origem fenícia e provém do radical “t’r” que significa “encurvar, dobrar” (este é um dos muitos casos em que o "t" fenício evoluiu para o "d" português.

DERROTAR
Aceita-se que a palavra “derrota”, e o verbo “derrotar” tenham origem no termo latino “rupta”, particípio passado feminino de “rumpere”, que significa “romper, separar”. No entanto ambos devem provir do fenício, de “t’ rdd” (com metátese passou a “ddrt’”), que significa precisamente “atacar e subjugar”, “atacar e submeter” ou “atacar e repelir”, e nada tem que ver com a ideia de “romper”. Pode no entanto o termo português provir apenas do termo fenício “rdd”, que após metátese pode ter passado a “drd” e “drt”, apenas com o significado de “repelir, subjugar ou submeter”.

DIQUE
A origem geralmente proposta para esta palavra é “dijk” (holandês). No entanto, em fenício, “diq” é “trincheira”, e parece mais provável que a palavra/conceito tenha surgido no próximo oriente, pois já haveria diques aí muitos milhares de anos antes dos primeiros diques holandeses terem sido construídos.

DIREITA (rua)
O “direito” no sentido de “recto” terá certamente origem no termo latino “directu”, que significa precisamente “em linha recta”. Já as várias “rua direita” que existem em outras tantas cidades portuguesas, e que são frequentemente tudo menos direitas, terá origem em “drk”, que significa “caminho”, ou mais provavelmente, em “drkt”, que significa “domínio, poder”. As “ruas direitas” são as ruas que conduzem ao centro de poder das cidades, e logo a sua origem nada terá que ver com o termo latino “directu” (em linha recta), mas antes com o fenício “drkt” (caminho do poder).

DÓ (ter)
Ter “dó” é “ter pena, ter compaixão, ter piedade”. Diz-se que provém do “dolo” que é “latim tardio” (isto do "latim tardio" é uma invenção dos latinistas para classificar de latinas a palavras que não o sendo efetivamente aparecem em textos medievais de base latina)  a  e significa “dor”, mas é provável que esse “dolo” seja a forma fenícia “dw” ou “dwh”, que significa “estar doente, doença”. Assim, provavelmente a nossa palavra “dó” tem realmente relação com “dolo”, mas este termo não é “latim tardio”, mas antes a latinização medieval do termo fenício, que aparece escrito em textos de base latina.

DOENÇA
Em fenício, “Dw” é “enfermo, doente”; “dwh” é “doente, menstruada”; “dwi”, é “indisposição, doença, doente”. Parece haver uma relação com episódio temporário (indisposição, menstruação). Por outro lado “anš” também significa “doença”, mas num sentido algo diferente: em ugarítico é “doente, débil, condenado”, e em hebraico antigo é “adoecer, incurável, calamitoso”; em acádio e em assírio-babilónio “enešu” é respectivamente “enfraquecer-se, ceder” e “enfraquecer, decair”, e “enšu” em acádio é “ser fraco”. Em qualquer dos casos deve ter sido da combinação dessas duas ideias base que surgiu a palavra “dwhanš”, e que veio a originar mais tarde a nossa palavra “doença”. A origem da palavra geralmente aceite é a forma latina “dolere”, que significa “sentir dor”.

DOIDO
Aceita-se habitualmente que a palavra “doido” tenha uma origem obscura. No entanto, em fenício “døhdw” significa “conhecimento doente" ou "sabedoria doente”, o que parece ser uma possibilidade de origem da palavra portuguesa.

DOMINGO
Aceita-se que a nossa palavra “domingo” resulte do termo latino “domínicus”, que significa “o que pertence ao senhor, ou a Deus” e que passou a ser aplicado ao dia de culto, que entre nós é o domingo. Contudo “dômi” ou “dômih” é em fenício “descanso”, “dômim”, é “sossego”, e “igiø” significa “trabalho, labor”. Assim, por exemplo, “dômimigiø” (ler "dômimiguio") será “descanso do trabalho”.
É nestas situações em que melhor se observa que num fenómeno de confluência das duas línguas. Parece que a língua é um organismo vivo e de consciência autónoma que procurou a solução que satisfizesse os falantes de ambas as línguas originais - o latim e o fenício. Para os falantes de latim (maioritariamente o clero da classe dominante) o novo termo “domingo” agradava, porque em seu entender se referia ao culto nas suas igrejas e ao seu Deus; para o povo falante da velha língua popular o novo termo fazia sentido, já que se referia ao dia de descanso. Assim deve ter nascido o “domingo” - ainda hoje dia de culto e de descanso.

DOR
A palavra “dor” deve resultar de mais um fenómeno de confluência entre o latim e o fenício. Em latim “dolore” é “dor” (física ou psicológica); em fenício “dw” é “estar doente”, “dwh” é “estar doente” mas também “estar menstruada”. Da fusão das duas palavras “dolore” e “dw”, nasceu a nossa “dor”, que foneticamente é um compromisso muito interessante entre as duas formas, e que do ponto de vista do significado conseguiu acumular os significados provenientes dois termos originais: do latino retirou a “dor” mais de carácter psicológico (dor moral, aflição, pena, etc.) e do fenício mantém o significado ancestral de “menstruação” ainda usado nos nossos campos.