Mostrar mensagens com a etiqueta Toponimia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Toponimia. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

"MIRA" E A TERRA FÉRTIL

É provável que o radical “mira”, tão comum na nossa toponímia, tenha pelo menos duas origens diferentes. Por um lado há topónimos em que este “mira” está relacionado com o verbo latino “mirare”, e portanto uma relação com o “mirar” do português atual. São exemplos de topónimos com esta origem os “Miradouro”, os “Mirante”, etc. Há contudo outros topónimos que por certo têm uma raiz diferente. É o caso de “Miranda”, “Ramiro”, “Almiranta”, “Odemira” e mesmo de “Mira” quando ocorre isoladamente. Neste caso o radical “mira” deve provir do termo fenício “mr’” (em acádio “mari”), e significar simplesmente “terra fértil”.
Enquanto os topónimos do primeiro grupo são muito abundantes nas nossas ilhas atlânticas, os do segundo grupo são aí inexistentes. Este facto sugere que o radical fenício “mr’” já não devia ser usado com o significado de “terra fértil” quando as ilhas foram colonizadas, e que por seu lado já era usado nessa época o verbo “mirar” de origem latina.
O significado dos topónimos de origem fenícia pode ter explicações interessantes. Por exemplo, “Miranda”, deve provir de “mr’” (que significa “terra fértil”) e de “Ømd”, que significa “lugar”. Assim as nossas “Mirandas” devem ter significado apenas e simplesmente “lugar de terra fértil”. Pode contudo este “anda” de “Miranda” provir de “Ømdh”, com o significado de “refúgio, posto”. Nesse caso o nome resultaria da existência de algum tipo de proteção defensiva (um castelo, uma torre de vigia uma cerca simples de troncos?), e o nome teria o significado de “refúgio da terra fértil”.

Localização dos topónimos “Miranda” segundo mapa produzido em http://www.igeoe.pt/igeoesig/

Já os topónimos do grupo “Ramiro” (Ramiro, Ramirão, Ramira, Ramires), devem ter relação com pastagens em terra fértil, e o nome deve ter nascido de “rØh mr’”, termos fenícios que significa respetivamente “pastar” e “terra fértil”.

É claro que o topónimo “Odemira” corresponde à junção do radical de origem árabe “ode” ao nosso mais antigo “mira”. Ora este “ode”, comum a “Odelouca”, “Odesseixe”, “Odivelas”, “Odemira”, etc., provém do “uad” árabe, que significa “rio” e deve ter sido acrescentado ao radical “mira” que já existia. Terá tido então o significado de “rio da terra fértil”. O mais curioso é que nome do rio acabou por perder a partícula que inicialmente significava “rio”. De resto faz algum sentido, porque chamar ao rio “rio de Odemira” corresponde na prática a dizer “rio de rio mira”.

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Como os latinistas escondem a origem fenícia da língua portuguesa

A ideia de que o português nasceu de uma língua a que podemos chamar “fenício” não é nova, apenas tem sido sistematicamente escondida por latinistas medíocres. Tentam fazer crer que a língua do povo foi esquecida e que esse mesmo povo (que somos nós) era constituído por uns matarruanos abrutalhados que não só deixaram de falar a sua língua, como nunca aprenderam a falar latim devidamente.

Contudo ao longo dos tempos muitos intelectuais constataram o óbvio: a língua que o povo falava antes da conquista romana era uma língua do grupo semita ocidental, que essa língua sobreviveu e é parte fundamental do português que falamos. Veja-se o que diz em 1712 D. Raphael Bluteau:

“(…) Primeiro que imperassem na Hispânia ao Romanos, é certo, que as duas nações a que chamamos Castelhana e portuguesa falavam alguma língua, se a língua Fenícia ou Cartaginesa, se outra composta destas duas, ou misturadas com idiomas de Gregos, Galos e outros povos adventícios, não o examino nem tenho notícia suficiente para decidir questão tão intricada como esta.”


D. Raphael Bluteau, “Vocabulário Portuguez e Latino” em 1712

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Da "balça" à "silva"


Hoje vou explicar uma evolução um pouco mais complicada. Não sei, apeteceu-me sair das coisitas mais banais e evidentes e mostrar aos mais interessados e inteligentes que as coisa quando se investigam a fundo são um pedacinho mais complexas. Mas opto ainda assim por facilitar...  
Parece-nos que as palavras "balça" e "silva" são bem diferentes. No entanto significam exatamente o mesmo. Uma "silva" é uma "balça", e um "silvado" é um "balseiro". Contudo os latinistas até lhes atribuem origens distintas, dizendo que "balça" teve origem em “balteu”, que significa “cinto, cintura” (o que parece ser de todo despropositado), e que "silva" nasceu da também latina palavra "silva".

Observem-se os seguintes elementos: 

em hebraico antigo “bls” significa “arranhar”; 
em acádio “baltu” quer dizer “planta espinhosa”; 

em latim a nossa ideia de “silva” é dada pelo termo “rubus”; 
o termo latino “silva” significa naquela língua “floresta, mata, bosque”, e está na origem da nossa palavra “selva”. 

Repare-se ainda que:

a palavra “balsa” tem a sequência consonântica “bls”; 
e que o termo “silva” tem a sequência consonântica “slb” (b=v),
que não é senão uma metátese da primeira.

Em relação ao termo acádio “baltu”, que significa “planta espinhosa”, será um dos muitos casos de evolução divergente do som “ts” para os sons independentes “t” e “s”. 
Portanto, é provável que tenha existido um antigo termo “blts” que divergiu para as palavras “blt” e bls”. A última sofreu uma metátese e passou a “slb”: a nossa “silva”. 

É assim que se pode recuar no conhecimento das línguas para conhecer a sua origem. Mas isto é realmente um pouco mais complexo...

quinta-feira, 6 de março de 2014

O "GODEL", O "GODELO" E O "GORDO"

Uma grande parte dos topónimos, com o passar do tempo e com a evolução da língua falada pelo povo, deixaram de ser usados como referências concretas aos eventos que justificaram o seu nascimento. Desse modo seguiram um de dois caminhos: alguns evoluíram foneticamente para palavras existentes na língua em uso; outros mantiveram a fonética próxima da original e passaram apenas a significar o evento que nomeiam.
Existem abundantíssimos exemplos de cada uma das situações. Como exemplo da primeira possibilidade podemos tomar o caso de “GRØMDHAZ”, que inicialmente significou “hospedaria segura” e que evoluiu quer para “Grão de Aço” quer para “Grandaços”; também o termo “ŠWH” fenício, que significa “ser plano, estar nivelado, etc.” (e que veio a evoluir para a nossa palavra “chão”), deu origem a topónimos como “Chã” e “Chão”, mas também a “João”.
Em outros casos os nomes dos sítios valem por si só, e nem o povo tenta uma explicação para a sua origem. Chama-se assim, porque assim sempre se chamou, e isso basta. Esse é o caso do grupo de topónimos “Godel” e “Godelo” que primeiro vou tratar. Depois falaremos de nomes que evoluem para parecerem palavras atuais.
J. P. Machado, no seu “Dicionário Onomástico e Etimológico da Língua Portuguesa” sugere uma origem germânica pata “Godel”, mas não explica porquê, nem tão pouco qual seria nesse caso o significado da palavra. Evidentemente que a origem germânica de topónimos portugueses como estes é pura ficção nascida de uma ideologia europeísta e anti meridional, mas sem o menor fundamento. Os nossos topónimos de raiz “GDL” provêm de formas fenícias como “gadôl” ou “godel”, que significam “ser grande em tamanho, em altura, em importância, em extensão, em riqueza, em poder,  etc.”. Os topónimos desta raiz, como “Godel” e “Godelo” foram frequentemente atribuídos a formas de relevo que correspondem a serras isoladas na paisagem, conforme se pode observar nos mapas que se seguem.

Uma possibilidade, por certo mais difícil de compreender, mas também mais interessante, é a de a sequência “GDL” ter evoluído para “GDR” por troca entre as líquidas “L” por “R”, e em seguida ter sofrido uma metátese “GDR” para “GRD”. Dessa evolução terá em muitos casos nascido o topónimo “Gordo”. Há largas dezenas de “Cabeça Gorda” e de “Cabeço Gordo”, que devem ter nascido por essa via. De resto, a própria palavra “gordo” pode ter esta origem, e ao contrário daquilo que geralmente se afirma não ter nascido do “gurdus” latino, que “estúpido, labrego, grosseiro”. 









domingo, 9 de fevereiro de 2014

OS QUEIJOS, OS COXOS E OS LIMITES DA TERRA

Alguém se lembrou de dizer que o “Castelo do Queijo” teria sido construído sobre uma rocha que parecia um queijo, e a coisa pegou. Hoje a “explicação oficial” para a origem do nome “Castelo do Queijo”, partilhada pelo povo e por alguma intelectualidade, é essa: “existiu no lugar onde está a fortaleza um rochedo que parecia mesmo um belo queijo”.
No entanto… na verdade este “queijo” do “Castelo do Queijo” deve ter nascido de “qṣ” ou “qṣh”, que em ugarítico e em hebraico antigo (portanto, de um modo genérico naquela língua a que costumo chamar de “fenício”), significa “extremo, borda, limite, margem, etc.”. O nome foi dado ao local pelo facto de aquele local ser o “limite, a borda, a margem”. Do mesmo radical “qṣ” ou “qṣh” nasceu o “Cochinho”, no Algarve, que não é mais que “qṣhim” ou “qṣim” (“im” é mar) que significa “limite ou borda do mar”.

(repare-se que em terra há um forte que se chama "Forte da Rata". "Rata" em fenício é "canal", e o "Forte da Rata" é o "Forte do Canal")
Moisés Espírito Santo no seu “Cinco Mil Anos de Cultura a Oeste” apresenta para esta mesma situação o topónimo “Cós”, da região de Alcobaça, local hoje afastado do mar, mas que segundo este autor, no passado, terá sido um porto fenício. Existem muitos outros topónimos que incluem o som “QS” e se referem ao limite de qualquer coisa. Temos o “Cosinhadouro”, a “Questã”, “Cochim”, “Cachim”, “Caxinas”…
Mas este som “QS” não deu só origem a topónimos. A nossa palavra “costa” (quando se refere ao território) também é um termo de origem fenícia que deve provir de “qṣt’h” [qassetôâ], em que “t’h” significa “traçar uma linha, demarcar”, e “qṣh” quer dizer “extremidade, fim, limite, margem, borda, beira, lado”. Portanto a nossa “costa” já inclui a ideia de “traçar uma linha”, e assim, quando dizemos “linha de costa” estamos na prática a usar a ideia de “linha” duas vezes.
Já agora, não continuem a pensar que os “Queijo” da toponímia tem relação com comida, que o “Cochinho” da barra de Tavira nasceu de um desgraçado a quem faltava uma perna, ou outros disparates do mesmo tipo. Os topónimos não nascem assim. Para os compreender é preciso comhecer a língua em que foram criados. O resto é imaginação popular.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

O NOSSO "PREGO" E AS DOBRAS LATINAS


Costuma aceitar-se que a nossa palavra “prego”, bem como o verbo “pregar” tenham nascido do “plicare” latino, que significa “dobrar”, ou “enrolar”. Usava-se essa palavra quando por exemplo se  enrolava um manuscrito, portanto o termo latino não tinha qualquer relação com a nossa ideia de "pregar" portanto de "trespassar", "cravar", etc.  Evidentemente que, tal como aconteceu com centenas de outras palavras, a origem latina foi procurada de forma imaginativa mas pouco científica, e não é aceitável nem lógica.
O “pregar” português deve ter nascido da forma fenícia “”pr’rq” que significa numa tradução à letra “trespassar batendo com um martelo”. Parece assim que após metátese o “pr’rq” passou a “pr’qr” e esse “preqar” abrandou para a forma “pregar”. 
É interessante este exemplo principalmente porque, ao contrário do que é mais comum, parece que neste caso não foi o objeto que deu origem ao verbo, mas o contrário.

Para saber mais sobre a origem das nossa palavras ver "A Origem da Língua Portuguesa" , por exemplo em:
 http://www.fnac.pt/A-Origem-da-Lingua-Portuguesa-Fernando-Rodrigues-de-Almeida/a727480

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

O BARLAVENTO E O SOTAVENTO





Usamos ainda hoje estes termos, tanto entre os marinheiros como enquanto designação de regiões. O “barlavento” é a área virada ao vento, a que está na direção do vento, a do lado do vento, enquanto o “sotavento” é a do lado oposto ao vento, portanto a que fica abrigada. A pergunta que se pode colocar é precisamente “qual a origem destes dois termos”? Por que motivo chamamos “barlavento” ao lado de onde sopra o vento? E porquê “sotavento” para o lado oposto?
Os dicionários consultados consideram ambas as palavras de “origem obscura”, pelo que em nada podem contribuir para o esclarecimento da situação. 
Sabendo-se que o “vento” de ambas é de origem latina, fica por clarificar a origem do “barla” de “barlavento” e o “sota” de “sotavento”.
Ora, parece que mais uma vez se pode encontrar no “fenício” a origem destas palavras. Em assírio “balru” significa “direção”, pelo que é fácil aceitar que o “balruvento” deu origem ao nosso “barlavento” após uma evolução fonética muito simples. O significado é indiscutivelmente semelhante, já que “balruvento” quer dizer precisamente o mesmo que “barlavento”, e que é simplesmente “direção do vento”.




Já em relação ao “sota” de “sotavento” parece que a situação é um pouco mais complexa. A palavra “sute”, em acádio e assírio significa “vento sul”, ou simplesmente “sul”, mas a palavra “sade” quer dizer “vento do oriente”. Pensando no Algarve, vemos que o “sotavento algarvio” é a parte oriental do Algarve, mas já se a referência for o arquipélago de Cabo Verde, o “sotavento” é o conjunto de ilhas que ficam a sul. Em qualquer dos casos trata-se de territórios que têm junto de si outros espaços por onde o vento dominante passa antes, a que se chama de “barlavento”. 



No caso do Algarve o vento dominante sopra de barlavento para sotavento, e outro tanto ocorre em Cabo Verde. Fica a hipótese de este “sotavento” corresponder à localização oposta à dos ventos dominantes, que por estas paragens do hemisfério norte vem dos quadrantes oeste ou norte. Daí que o nosso “sotavento” poder ter sido na sua origem o vento sul ou oriental, raro e oposto ao vento dominante. 

Se alguém tiver uma explicação mais interessante...

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

ORIGEM E SIGNIFICADO DO TOPÓNIMO "ÍLHAVO"

É possível que o topónimo “Ílhavo” signifique “costa das febres” e seja proveniente de “iili’abu” ou “iili’avu”. O radical “ii” significa em hebraico antigo “costa, litoral, ilha” e tem equivalente em ugarítico no termo “ay” ao qual é dado o significado de “ilha”. O termo “li’avu” é proveniente da “terapêutica mesopotâmica” (que é um glossário assírio especialmente interessante por conter termos ligados à medicina), e significa precisamente “febre”. Daí a possibilidade de “Ílhavo” ter significado originalmente “terra da febre”, e o nome de toda a região ter mais tarde ficado ligado à povoação.


Não me parece descabida esta possibilidade, visto que em tempos recuados a costa marítima seria precisamente onde está hoje o rio Boco, e os terrenos que hoje existem a Oeste seriam primeiro mar aberto, e mais tarde pântanos. De resto toda essa região a Oeste de Ílhavo é dominada por locais de nome “gafanha”: é a da “Nazaré”, a de” Aquém”, a da “Boavista”, a da “Encarnação”, a do “Carmo”, a da “Vagueira”, a da “Boa Hora”, a do “Areão”… Quer isto dizer que toda aquela região era terra de “gafos”, ou seja, de leprosos. Portanto deve ter-se tratado de uma área inóspita, pantanosa e cheia de mosquitos, certamente em certos períodos com paludismo endémico.
Esta possibilidade pode de algum modo ser confirmada com a existência do topónimo “febres” no sul da antiga “costa velha”, no concelho de Cantanhede, que será a tradução para português atual do topónimo “Ílhavo”.
José Pedro Machado refere o uso de várias grafias antigas para este topónimo: “Iliauo” entre 1037 e 1065; “Iliauo” e “Iliabum” em 1088; “Ilauum” em 1095; “Ilhauo”  em 1176; “Ilhevo” e “Ilhovo” no séc. XVI.  É de notar que em especial as formas mais antigas são muito próximas do “iili’abu” fenício.
Dados todos estes factos sou de opinião que o topónimo “Ílhavo” deve ter nascido de “iili’abu”, com o significado de “costa das febres”, e que constituía designação genérica de toda a costa pantanosa da região da atual Ria de Aveiro. Mais tarde o topónimo acabou por ficar associado a um dos seus povoados mais antigos, a atual cidade de "Ílhavo".


sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

AS VELHAS LENDAS FENÍCIAS QUE AINDA SOBREVIVEM

Pintura de Carlos Porfírio existente no Museu de Faro

Zorra berradeira

A “Zorra berradeira” é uma entidade mítica das serras do Baixo Alentejo e Alarve. Entre todos os “medos” de que ouvi falar nesta região é o mais temido. Na aldeia de S. Luís também é conhecida por “zorra magra”. Entre os velhos, há quem afirme tê-la ouvido de noite, e tratar-se de um animal que nunca ninguém vê, mas que existia; mas há também quem afirme nunca a ter ouvido, e tratar-se de um “medo” com que antigamente se assustava as pessoas, e particularmente os jovens.

Em “O Algarve Encantado na Obra de Carlos Porfírio” (edição do Museu de Faro - 2001) há uma descrição deste, feita no séc. XIX, por Francisco Xavier de Ataíde Oliveira. Essa descrição tem mais detalhes que os que até hoje tenho conseguido pelos testemunhos diretos dos velhos do concelho de Odemira. Diz:

“O povo do Algarve fala da zorra berradeira com um medo horrível.
Diversas são as opiniões que correm a respeito dessa entidade malfazeja.
Uns afirmam que a zorra berradeira é uma transformação de moura encantada. Certa moura encantada, desejando escapar-se aos funestos efeitos do encantamento, rebelou-se contra Allah, que a castigou, desgarrando-a e tornando-a objecto de ódio de toda a gente, mouros e cristãos.
Outros sustentam que aquele ser horrível é a alma penada de uma velha, em vida muito má, e que respondia a quem lhe censurava a sua vida escandalosa:
- Neste mundo anda-se como se quer. Porque no outro nada podem saber.
De noite, a deshoras, tem muita gente ouvido berrar, nos cumes dos mais agrestes serros, a zorra fatal. Vista de longe parece uma cabra, de mais perto uma imunda ave, de enormes dimensões, com as asas manchadas e sujas. É o verdadeiro retracto das arpias de outras eras.
Pessoas há que têm sido acometidas de noite pela zorra berradeira e se têm visto em grande perigo. Salta sobre o indivíduo com uma força enorme e no mesmo momento, como um velo arremessado pela força do vento, vai pousar sobre o serro mais alto. Exala de si um vapor imundo e nojento e, berrando atroa os serros e vales.
Em muitos concelhos do Algarve é a zorra berradeira muito mais temível do que as mouras encantadas ou as bruxas.
Parece que nos seus berros só anuncia desgraças e maldades.
Enquanto as Gens ou Jens são uns seres bem fazejos e queridos, a zorra berradeira é má e odiada por toda a gente.
A zorra berradeira é verdadeiramente a transformação das fúrias dos antigos. É tão má como estas e como estas igualmente temida.
Quando alguém tem a infelicidade de ouvir de noite a zorra berradeira, conta logo com desgraça em casa.
(…)
Quando se pergunta a alguém, onde reside a zorra berradeira, responde imediatamente:
Em Odelouca.
Odelouca é uma ribeira que vem desaguar no rio de Portimão.
Há ocasiões em que a zorra berradeira se converte em um verdadeiro flagelo no concelho de Monchique. Os habitantes dos sítios de Odelouca não se atrevem a sair de suas casas, à noite. (…)”

Vejamos a origem provável desta entidade:

SØR ou SØIR [ZOUR ou ZOUIR] é um “bode; cabeludo; demónio (em forma de bode)”, mas também “horrorizar-se, eriçar-se, tempestuoso; temor, tempestade; tornar-se tempestuoso, tempestade, ficar perplexo, voar (…)”. Por outro lado ZWR [ZUÔR] quer dizer “feder, ser intolerável”[1]. É claro que esta “zorra” pouco tem que ver com a raposa, que por aqui também se chama zorra. A única relação vem do ZWR – cheirar mal, que de resto está possivelmente na origem do nome popular do carnívoro.

“Berradeira” provém certamente de BRD+HR [bêrrêdeir], e significa “animal manchado da serra”. Este BRD é comum ao nome de um pequeno carnívoro que existe no Sul do país, e que por aqui se chama “escalabardo”. Repare-se que este “escalabardo” não é mais que SKL+BRD – proceder mal, ou ser insensato + animal manchado.

O outro nome que encontramos em S. Luís – “Magra” – deve provir de “MAGÔR”, que em hebraico antigo significa “espanto, horror”, ou de “MGR” – “deitar por terra, derrubar para baixo”.

Assim a zorra berradeira deve ter significado inicialmente “animal manchado da serra + demónio (em forma de bode)”, ou numa tradução mais fácil, “demónio (em forma de bode) manchado da serra”. Mais tarde, foram-se acrescentando novos atributos aos originais, atributos esses que resultam, como acontece em muitos outros casos, de significados de expressões foneticamente próximas, quer oriundas das línguas semitas antigas, quer do português actual. Por isso o animal também “voa” numa “tempestade” (SØR), e “exala em si um vapor imundo e nojento” (ZWR).
                                                                                    
É provável que este ser mítico das serras do Sul seja uma importação de um mito antigo do próximo oriente que viajou com os colonos que por aqui vieram estabelecer-se, e não, como se poderia pensar, de um mito criado nesta região do país. Será mesmo muito provável que actualmente a zorra berradeira já não exista em lado algum da região do mediterrâneo oriental onde provavelmente nasceu, e tenha permanecido nesta antiga colónia distante entre os descendentes dos emigrantes desses tempos. Pode ser algo semelhante ao que acontece ainda hoje na ilha do Príncipe, em que se representam episódios de combates entre mouros e cristãos, alguns dos quais já esquecidos em Portugal, mas que se mantêm vivos na nossa antiga colónia.




[1] - Este deve ser um, entre muitos casos, em que um termo da língua popular se funde com o latim para dar origem a um termo do português. “Suor” do português deve a confluência espontânea entre o “SUDOR” latino com o ZUÔR semita.

sábado, 21 de dezembro de 2013

A nossa romã, os romanos e os fenícios



Aceita-se usualmente que a nossa palavra “romã” tenha tido uma origem latina, em “romana (mala)”, que seria “maçã romana”. Não resisto a salientar a obcecação latinista dos nossos letrados, que por vezes (como é o caso) os fez roçar o ridículo. Já no século XIX o Cardeal Saraiva referia a origem hebraica da palavra. Vale a pena citar um pouco do seu texto sobre o assunto:
“…porque o nome malum punicum, que lhe deram os latinos, parece indicar que esta planta tinha sido introduzida na Europa pelos carthaginezes.”. Ainda assim os nossos latinistas procuram a origem da palavra “romã” em “Roma”.
Lendo o texto do Cardeal Saraiva não se pode dizer que não se sabia a origem da palavra "romã", e terá que se admitir que insistir no erro terá já sido má fé. Para isso inventara mesmo a forma hipotética “mala romana”, sabendo-se precisamente que os romanos lhe chamavam “malum punicum”. Digamos que é preciso ser absolutamente obcecado pelos romanos e ao mesmo tempo não ter o mínimo de rigor científico.
 Na verdade a palavra deve ser fenícia, já que “rumôn” em hebraico antigo significa precisamente “romã”. Se já no século XIX se sabia isto, por que motivo os dicionários do século XXI insistem no erro? Dá que pensar.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

O CAMINHO, A DISTÂNCIA E O FOGÃO


"Geralmente os dicionários admitem que a palavra “caminho” tenha origem num termo do “latim vulgar” – “camminu-”. Simplesmente, como é bom de compreender, o dito “latim vulgar” não é latim. O termo latino foneticamente mais próximo é “caminus”, e significa “forno, fornalha, fogão”, e logo nada tem que ver com percursos ou distâncias. 





Já em fenício “kmn” (em boa verdade não sabemos como era pronunciado, talvez [kamene]), significa “distância”. 



É portanto incomparavelmente mais provável que a nossa palavra “caminho” provenha de “kmn” fenício que de qualquer palavra latina que possa significar “forno”. De resto continuamos a usar a palavra “caminho” precisamente no sentido de “distância”."

In: A origem da Língua Portuguesa, p. 150


 Por estranho que possa parecer ainda há quem continue a afirmar a origem latina da palavra! Ele há gente para tudo!


segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Contudo, ela move-se!

Sei que por certo há muito quem não queira que o meu trabalho seja divulgado e coloque em causa as "verdades" nunca questionadas sobre a origem latina da nossa língua. Por isso não me admiro que haja quem queira abafar o meu livrinho "A Origem da Língua Portuguesa". Suspeito que é isso que me tem acontecido na divulgação do livro. A última foi uma verdadeira "sabotagem à moda antiga". A do meu livro apresentação prevista para a FNAC do centro Vasco da Gama foi anulada. A mim foi-me enviado um mail dizendo que a FNAC tinha cancelado a apresentação; à FNAC foi enviado um mail (pela mesma pessoa) dizendo que eu tinha cancelado a apresentação...
Alguém me quer calar, ou melhor, quer calar o que eu descobri sobre "A Origem da Língua Portuguesa". Até pode ser que me consigam abafar e com isso continuar a dizer que o português é um "latim mal falado". Mas a verdade é que o português é mais fenício que latim.
Os que pretendem evitar o progresso do conhecimento têm poder, mas...
Contudo, ela move-se!

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

TOPONÍMIA PORTUGUESA DE ORIGEM FENÍCIA



Fronteiras e limites de território

Mesmo em muitas populações animais o “território” é algo de fundamental para a vida dos grupos. Para o Homem deve ter sucedido o mesmo desde o tempo em que dependia da caça e recoleção, mas a importância do "território posse" de uma comunidade ampliou-se certamente após a  sedentarização e desenvolvimento da agricultura, dado o enorme esforço que é necessário para transformar um espaço natural numa paisagem humanizada (com os seus campos arroteados, plantações de árvores de fruto, silos, casas, estruturas defensivas para humanos e animais, poços, etc.). Por isso os limites dos territórios foram referência espacial de primeira importância, e criaram um conjunto de topónimos que ainda hoje se podem encontrar no país.

Em Portugal existem pelo menos dois conjuntos de topónimos que corresponderam a nomes dados a antigas fronteias: Os da família de "Miséria" (mas com variantes como "Macieira", "Maceira", "Meixeira", "Ameixeira", etc.), e os da família de "Cavalo" (com variantes como "Cavaleiro", "Carvalheiro", etc.). Vejamos um exemplo.


Os topónimos “Miséria” e “Misérias” ocorrem apenas onze vezes na Carta Militar de Portugal. Em acádio, “MISRU” significa o mesmo que “MESRU” em assírio: “fronteira, território”. Repare-se na imagem em baixo que dos dez topónimos registados nas cartas dos S. C. E. ainda hoje oito são pontos de fronteira de concelhos, e os restantes poderão ser limites de outras realidades administrativas ainda existentes (freguesias), ou ter sido de concelhos extintos, feudos desaparecidos, etc.


Outro radical que em "fenício" está relacionado com “limite de território” é “GBL”. Vejamos o significado nas línguas antigas do Próximo Oriente desta palavra e de palavras foneticamente próximas: a palavra “GB’” em ugarítico significa “colina, altura”; “GBØH” em hebraico antigo é “colina, outeiro, elevação”, o que é basicamente o mesmo. “GBL”, em ugarítico, significa “limite, fronteira; cimo, monte”, e em hebraico antigo é “montanha, fronteira, limite, fazer a divisão, marcar o limite ao redor de”, o que confirma a ideia anterior (dada por “GB’”) e a especifica. Por outro lado “QABAL”, em acádio, significa “ao meio de”, mas há também várias formas foneticamente próximas cujo sentido se relaciona com conflitos: “QABÂLU” em assírio é “afrontar-se com o inimigo, lutar”; “QABLU” em acádio significa “encontrar-se hostilmente, combate”, etc.

É possível que entre nós tenha sido usado principalmente para designar limites em áreas pouco ocupadas de serra ou campos pobres, mas que eventualmente tenham sido alvo de litígio na sua definição por parte das comunidades vizinhas. Mas isto para já é apenas uma possibilidade.

Este radical deu origem a topónimos com “Cavala” e “Cavalo” , “Cavaleiro” e “Cavaleira” e ainda “Carvalho”, “Carvalheiro” e Carvalheira”, e outras palavras próximas [1]. Verificou-se neste caso uma evolução do “G” original do "fenício", para um “C” do português atual, e num fenómeno comum de aproximação a palavras do português padrão, e a habitual “colagem” a palavras existentes no léxico das populações locais.

Embora muitas vezes os topónimos deste grupo correspondam a limites de unidades administrativas atuais, como freguesias, concelhos ou mesmo distritos, eles devem também ter sido usados para designar limites de propriedades comunitárias das aldeias, de pastagens de determinadas comunidades, etc.

O desenvolvimento destes estudos baseados na interpretação da toponímia com base na língua pré-latina  (a que de facto era falada pelo povo que criou os nomes dos sítios) permitirá conhecer muito mais do nosso passado: caminhos, povoações, necrópoles... Está tudo lá, é só preciso saber ler...




[1] - A “Carta Militar de Portugal” na escala de 1: 25 000 regista  mais de 200 locais cujo nome é da família de  “cavalo”, e da família de “carvalho” tem perto de mil.