quinta-feira, 6 de março de 2014

O "GODEL", O "GODELO" E O "GORDO"

Uma grande parte dos topónimos, com o passar do tempo e com a evolução da língua falada pelo povo, deixaram de ser usados como referências concretas aos eventos que justificaram o seu nascimento. Desse modo seguiram um de dois caminhos: alguns evoluíram foneticamente para palavras existentes na língua em uso; outros mantiveram a fonética próxima da original e passaram apenas a significar o evento que nomeiam.
Existem abundantíssimos exemplos de cada uma das situações. Como exemplo da primeira possibilidade podemos tomar o caso de “GRØMDHAZ”, que inicialmente significou “hospedaria segura” e que evoluiu quer para “Grão de Aço” quer para “Grandaços”; também o termo “ŠWH” fenício, que significa “ser plano, estar nivelado, etc.” (e que veio a evoluir para a nossa palavra “chão”), deu origem a topónimos como “Chã” e “Chão”, mas também a “João”.
Em outros casos os nomes dos sítios valem por si só, e nem o povo tenta uma explicação para a sua origem. Chama-se assim, porque assim sempre se chamou, e isso basta. Esse é o caso do grupo de topónimos “Godel” e “Godelo” que primeiro vou tratar. Depois falaremos de nomes que evoluem para parecerem palavras atuais.
J. P. Machado, no seu “Dicionário Onomástico e Etimológico da Língua Portuguesa” sugere uma origem germânica pata “Godel”, mas não explica porquê, nem tão pouco qual seria nesse caso o significado da palavra. Evidentemente que a origem germânica de topónimos portugueses como estes é pura ficção nascida de uma ideologia europeísta e anti meridional, mas sem o menor fundamento. Os nossos topónimos de raiz “GDL” provêm de formas fenícias como “gadôl” ou “godel”, que significam “ser grande em tamanho, em altura, em importância, em extensão, em riqueza, em poder,  etc.”. Os topónimos desta raiz, como “Godel” e “Godelo” foram frequentemente atribuídos a formas de relevo que correspondem a serras isoladas na paisagem, conforme se pode observar nos mapas que se seguem.

Uma possibilidade, por certo mais difícil de compreender, mas também mais interessante, é a de a sequência “GDL” ter evoluído para “GDR” por troca entre as líquidas “L” por “R”, e em seguida ter sofrido uma metátese “GDR” para “GRD”. Dessa evolução terá em muitos casos nascido o topónimo “Gordo”. Há largas dezenas de “Cabeça Gorda” e de “Cabeço Gordo”, que devem ter nascido por essa via. De resto, a própria palavra “gordo” pode ter esta origem, e ao contrário daquilo que geralmente se afirma não ter nascido do “gurdus” latino, que “estúpido, labrego, grosseiro”. 









domingo, 9 de fevereiro de 2014

OS QUEIJOS, OS COXOS E OS LIMITES DA TERRA

Alguém se lembrou de dizer que o “Castelo do Queijo” teria sido construído sobre uma rocha que parecia um queijo, e a coisa pegou. Hoje a “explicação oficial” para a origem do nome “Castelo do Queijo”, partilhada pelo povo e por alguma intelectualidade, é essa: “existiu no lugar onde está a fortaleza um rochedo que parecia mesmo um belo queijo”.
No entanto… na verdade este “queijo” do “Castelo do Queijo” deve ter nascido de “qṣ” ou “qṣh”, que em ugarítico e em hebraico antigo (portanto, de um modo genérico naquela língua a que costumo chamar de “fenício”), significa “extremo, borda, limite, margem, etc.”. O nome foi dado ao local pelo facto de aquele local ser o “limite, a borda, a margem”. Do mesmo radical “qṣ” ou “qṣh” nasceu o “Cochinho”, no Algarve, que não é mais que “qṣhim” ou “qṣim” (“im” é mar) que significa “limite ou borda do mar”.

(repare-se que em terra há um forte que se chama "Forte da Rata". "Rata" em fenício é "canal", e o "Forte da Rata" é o "Forte do Canal")
Moisés Espírito Santo no seu “Cinco Mil Anos de Cultura a Oeste” apresenta para esta mesma situação o topónimo “Cós”, da região de Alcobaça, local hoje afastado do mar, mas que segundo este autor, no passado, terá sido um porto fenício. Existem muitos outros topónimos que incluem o som “QS” e se referem ao limite de qualquer coisa. Temos o “Cosinhadouro”, a “Questã”, “Cochim”, “Cachim”, “Caxinas”…
Mas este som “QS” não deu só origem a topónimos. A nossa palavra “costa” (quando se refere ao território) também é um termo de origem fenícia que deve provir de “qṣt’h” [qassetôâ], em que “t’h” significa “traçar uma linha, demarcar”, e “qṣh” quer dizer “extremidade, fim, limite, margem, borda, beira, lado”. Portanto a nossa “costa” já inclui a ideia de “traçar uma linha”, e assim, quando dizemos “linha de costa” estamos na prática a usar a ideia de “linha” duas vezes.
Já agora, não continuem a pensar que os “Queijo” da toponímia tem relação com comida, que o “Cochinho” da barra de Tavira nasceu de um desgraçado a quem faltava uma perna, ou outros disparates do mesmo tipo. Os topónimos não nascem assim. Para os compreender é preciso comhecer a língua em que foram criados. O resto é imaginação popular.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Sobre a origem de alguns nomes de divindades gregas.


A obcecação europeísta e antissemita, que criou a construção teórica do “indo-europeu”, tem impedido a compreensão de que a bacia do Mediterrâneo foi uma unidade cultural e linguística contínua, e não um espaço de confronto de civilizações com origens distintas. Essa grande comunidade cultural primitiva nasceu da grande difusão civilizacional que foi a diáspora neolítica dos povos do Médio Oriente que, pouco a pouco, foram ocupando terras de bom potencial agrícola até essa época sem ocupação humana permanente.
Imbuídos dessa ideologia fomos ignorando que há muito de comum entre as sociedades, línguas e culturas do Médio Oriente e as de vastas áreas do Mediterrâneo, procurando pelo contrário no interior do continente europeu a origem das culturas Mediterrâneas do sul da Europa. É evidente para quem se detenha a pensar, mesmo que brevemente, sobre a evolução aquilo a que chamamos de “civilização”, que a Europa esteve durante muitos milénios a uma enorme distância cultural e tecnológica do Médio Oriente. Já existiam povoados de grandes dimensões a que alguns chamam de cidades naquela região, e na maior parte da Europa ainda se vivia da caça e da recoleção.
Esta realidade vai ainda hoje sendo o mais possível ocultada pelos países do norte (os mesmos que “inventaram” a ideologia do “indo-europeu”) procurando criar um “berço” da civilização na Grécia antiga, como se ela mesma não fosse apenas uma extensão natural da civilização Médio-Oriental. Daí que mesmo ao nível do nome dos seus deuses… há coisas muito curiosas.
Hera, na mitologia grega é irmã e esposa de Zeus e rege a fidelidade conjugal, e pode ostentar na mão uma romã, símbolo da fertilidade.
– Hera (fertilidade) – o nome da deusa deve ter nascido da sua característica de propiciar a fecundidade. Repare-se que “hr” [êr] ou “hry” [êri] em ugarítico, “hrh” [êrê] em hebraico antigo, bem como “eru” em acádio, significa “conceber, engravidar”. Não tem certamente relação com a ideia de “ar” (em grego “aer”).
Héstia é a deusa grega do lar e dos laços familiares, simbolizada pelo fogo doméstico. É em torno da fogueira que se junta a família, e por isso o fogo do lar é símbolo da união da família.
– Héstia (o fogo doméstico) – por certo o nome tem relação próxima com o “išt” ugarítico, que significa precisamente “fogo”.
Deméter é a deusa grega da destruição, mas também da agricultura, da terra cultivada, das colheitas, das estações do ano, e em particular do trigo. Hoje pode parecer algo contraditório a mesma deusa propiciar a destruição e as colheitas, mas para a compreender convém relacioná-la com os ciclos da natureza e das sementeiras: estações do ano, a sementeira (“morte” da semente no interior da terra e o seu renascimento) e as colheitas. Parece ter relação com a “Inanna” suméria, que originou a “Ishtar” acádia, assíria e babilónica.
 – Deméter ou Demetra (mãe da destruição e da agricultura) – do acádio “damtu”, destruição.

Hedone é um “daemon” feminino (uma divindade grega do tipo “génio”), filha de Eros e Psique, que se relaciona com o desejo sexual e com o prazer. O nome latino equivalente é “dæmon”, que veio a dar origem ao “demónio” português. A evolução do significado do nome – de “deusa do desejo e prazer” para “demónio”, fonte de todos os males – corresponde à diabolização da própria sexualidade que acabou por ocorrer na Igreja Católica.
– Hedone (desejo, prazer) – o termo “Ødnh” [edêne] em hebraico antigo significa precisamente “prazer, desejo”. A palavra próxima “Ødn”, em hebraico antigo significa “viver em delícias, regalias”, veio a dar o nosso “eden” (o paraíso).
Selene é a lua, mas também a deusa do amanhecer. É a deusa da luz que combate a escuridão da noite. Tem como equivalente romana a deusa “Luna”.
 – Selene (lua) – de “ṣhl” que em hebraico antigo e ugarítico significa “resplandecer, fazer brilhar” (tal como o “sélas” grego). Talvez que também de “lin” (hebraico antigo) ou “ln” (ugarítico) que significa “passar a noite, pernoitar”. Portanto “ṣhllin” – “resplandecer da noite”.
Apolo era filho de Zeus e Leto, e irmão gémeo de Ártemis. Parece que era conhecido na Grécia como Apollon, e para os romanos era Apollo. Entre os etruscos era conhecido por Apulu ou Aplu.
– Apolo (o mais influente dos filhos de Zeus) – Certamente com relação próxima ao acádio “aplu”, com o significado de “filho herdeiro”, ou do assírio “aplu” com o significado de “filho”.
Afrodite é a deusa do amor, beleza e sexualidade. É a equivalente grega à deusa Venus romana. Por vezes associa-se indevidamente a origem do nome a “aphros”, que significa "espuma", traduzindo-o como "erguida da espuma".

– Afrodite (deusa do amor, da beleza e sexualidade) – provável relação com “iôpi”, “iØp” ou “iØph”, “iph” (em todos os casos o “p” pode ser lido “f”), termos que significam “beleza, resplendor, mostrar-se radiante, tornar-se belo”. Também existe a possibilidade de o final da palavra, o “dite” provir de “dd”, que em ugarítico significa “amor, amado, amante”, mas também “seios” (na forma assíria é “did” e na hebraica “dd”). Por outro lado “Ørih” é “nudez, estar nua”. Assim pode admitir-se a forma composta “iphØrihdid” com o significado de “amante bela nua”. Parece-me apenas possível. Mas ainda assim será uma hipótese de trabalho mais interessante que a usualmente referida “aphros” (espuma).