quinta-feira, 22 de maio de 2014

O "Farilhão", o "Palheirão" e a sua origem comum

Muitas palavras que hoje nos parecem muito diferentes tiveram uma origem comum, mas com a passagem dos séculos e dos milénios sofreram uma evolução divergente de modo que hoje já não é fácil perceber que são o mesmo dito apenas de maneiras diferentes. Para conseguir perceber este fenómeno convém conhecer os fundamentos de evolução fonética entre as línguas antigas do Próximo Oriente e as línguas atuais do sudoeste da Europa (assunto que desenvolvi no meu "A Origem da Língua Portuguesa"), pois sem esse conhecimento será muitas vezes difícil compreender em profundidade a língua portuguesa. 

Na antiguidade a nossa língua não distinguia os sons "p" e "f", e por isso topónimos como "Palheirão" e "Farilhão" são exatamente o mesmo, embora possa não parecer à primeira vista. Repare-se que...

As rochas junto à costa que estão separadas desta às vezes poucos metros, e que se mantêm como pequenas ilhas mesmo na maré cheia, chamam-se no litoral alentejano “palheirão”. A cartografia militar à escala 1:25000 apresenta algumas destas rochas com o nome próprio, mas muitas outras existem, conhecidas apenas por “palheirão” ou acompanhado do topónimo mais próximo, por exemplo, “Palheirão da Samouqueira” em Porto Covo. É claro que essas rochas nunca tiveram palha nem serviram de palheiro, tanto porque não produzem qualquer tipo de palha, como porque seriam um local totalmente desapropriado para a guardar. Assim, o “palheirão” da toponímia litoral terá certamente uma outra origem.



Mas por outro lado um “farelhão” (ou “farilhão”) é exatamente o mesmo que um “palheirão”: uma pequena ilha, por vezes escarpada, um rochedo alto no mar. Note-se que se, por exemplo, se substituir o “p” de “palheirão” por um “f”, tem-se a palavra “falheirão” que é quase igual a “farelhão”. Convirá dizer que os dicionários geralmente apontam a origem da palavra “farelhão” para o termo grego “phalarós” com o significado de “que está branco de espuma”, o que é despropositado dado que os "palheirões" ou "farilhões" são precisamente locais onde não há espuma.



A origem do nome de ambas deve provir da raiz “pl” que em ugarítico significa “fender, rachar” e que se encontra na forma hebraica antiga “plḥ” com o significado de “abrir-se, atravessar, trespassar, cortar (em pedaços), rodela, pedaço, fatia, pedra de moinho” (portanto, pedaço de pedra), e de “rm”, “rôm” ou “rwn” (“plḥ +rm”, “plḥ +rôm”, ou “plḥ +rwm”), em que , o "rm" significa “altura, ser alto, elevar-se”. Significaria à letra neste caso “pedaço elevado” ou “pedaço de rocha alto”. 

Veja-se então, e é esse o objetivo destas linhas, como palavras hoje diferentes como "farilhão" e palheirão" têm exatamente a mesma origem. O mesmo acontece na toponímia em muitas centenas de casos, alguns bem mais difíceis de compreender (ou de explicar), como por exemplo "Grangaço" e "Grão de Aço", "Perna" e "Farinha", etc. 

E isto é só o princípio, porque o que há para descobrir é seguramente muito mais que aquilo que já se descobriu. 

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Da "balça" à "silva"


Hoje vou explicar uma evolução um pouco mais complicada. Não sei, apeteceu-me sair das coisitas mais banais e evidentes e mostrar aos mais interessados e inteligentes que as coisa quando se investigam a fundo são um pedacinho mais complexas. Mas opto ainda assim por facilitar...  
Parece-nos que as palavras "balça" e "silva" são bem diferentes. No entanto significam exatamente o mesmo. Uma "silva" é uma "balça", e um "silvado" é um "balseiro". Contudo os latinistas até lhes atribuem origens distintas, dizendo que "balça" teve origem em “balteu”, que significa “cinto, cintura” (o que parece ser de todo despropositado), e que "silva" nasceu da também latina palavra "silva".

Observem-se os seguintes elementos: 

em hebraico antigo “bls” significa “arranhar”; 
em acádio “baltu” quer dizer “planta espinhosa”; 

em latim a nossa ideia de “silva” é dada pelo termo “rubus”; 
o termo latino “silva” significa naquela língua “floresta, mata, bosque”, e está na origem da nossa palavra “selva”. 

Repare-se ainda que:

a palavra “balsa” tem a sequência consonântica “bls”; 
e que o termo “silva” tem a sequência consonântica “slb” (b=v),
que não é senão uma metátese da primeira.

Em relação ao termo acádio “baltu”, que significa “planta espinhosa”, será um dos muitos casos de evolução divergente do som “ts” para os sons independentes “t” e “s”. 
Portanto, é provável que tenha existido um antigo termo “blts” que divergiu para as palavras “blt” e bls”. A última sofreu uma metátese e passou a “slb”: a nossa “silva”. 

É assim que se pode recuar no conhecimento das línguas para conhecer a sua origem. Mas isto é realmente um pouco mais complexo...

domingo, 13 de abril de 2014

A PIADA QUE TEM A ORIGEM DA "PIADA"

A nossa palavra “piada” tem uma origem pouco comum. Evidentemente que o “pi” inicial provém do “p’” (ou formas próximas, como “pu”), que significa em fenício “falar, dizer”; já a parte final da nossa “piada”, o “ada” vem por certo de “ĥadu”, que em acádio e assírio significa “alegrar-se, alegria, alegre” (ou da forma equivalente do hebraico antigo – “ḥdh”). Assim a “piada é à letra “falar alegre”. 
O que aqui tem piada acaba por ser a explicação que usualmente se dá para a origem da palavra "piada": diz-se que se relaciona com o verbo "piar". Mais parece pensamento de passarinho...